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Vem aí, Serelepe! – Professora Doutora Elaine dos Santos

22 de abril de 2019 | Arquivado em Opinião | 239 views

 

Elaine dos Santos

Vem aí, Serelepe!

Dias atrás, Marcelo Serelepe anunciou a novidade: o Teatro Serelepe está retomando as suas atividades, de início, na cidade de Santiago/RS. A notícia alegrou – e muito! – aqueles que gostam do riso fácil e que buscam, no teatro, um lenitivo para aplacar as agruras do cotidiano.

Marcelo Serelepe é herdeiro de uma longa tradição familiar. O seu pai, José Maria de Almeida, seu Zezo, deu vida ao palhaço Serelepe desde os anos 50, atuando na Politeama Oriente, de seu pai, José Epaminondas, e, posteriormente, no Teatro Serelepe, que, a partir de 1962, percorreu o Rio Grande do Sul apresentando peças “de chorar” (melodramas, adaptações de romances e filmes); peças “de rir”, comédias variadas; o famoso “Big Show”, espaço em que os artistas da companhia traziam músicas de sucesso, em particular, nas emissoras de rádio da capital, além de memoráveis esquetes cômicos.

Antes do palhaço Serelepe, vivido pelo “seu” Zezo, o palco pertencia a Nhô Bastião, avô de Marcelo Serelepe. Em 1929, no meio das lavouras de café, em galpões erguidos para os trabalhadores alojaram-se durante a safra, Nhô Bastião e sua irmã Nh’ana, Isolina, faziam palestras cômicas – semelhantes aos atuais “stand ups”. Posteriormente, a família adquiriu um circo – o circo Oriente – e, anos mais tarde, houve a compra da politeama – teatro em chapas de zinco que se encaixavam para compor o pavilhão em que o grupo se apresentava. Aos Almeida reuniu-se a família de Luiz e Alice Benvenuto, iniciando uma linhagem consagrada de artistas.

Em um tempo em que a televisão e a internet não dominavam a cena, tem-se relatos emocionados do público que frequentava o teatro, meninos e meninas que cresceram, namoraram, casaram e encantaram-se com os cenários, com os dramas apresentados, mas que também riram muito com as piadas, com os trejeitos e, por vezes, com gestos singelos, mas grandiloquentes, dos palhaços. Mais que um teatro de variedades, o Teatro Serelepe faz parte da história de muitos gaúchos.

Em 1971, aos sete anos de idade, conheci o Teatro Serelepe e, ali, pela primeira vez, ouvi falar em Shakespeare, Alexandre Dumas, Amaral Gurgel, muito mais que isso aprendi o que significava ponto, coxia, cenografia, entre tantos termos próprios do mundo artístico. Assim como muitos homens e mulheres da minha geração, vi “Romeu e Julieta”, “Otelo”, “Ferro em brasa”, “O morro dos ventos uivantes”, “A canção de Bernadete”. Sob certo aspecto, considero, pois, um didatismo típico dessa atividade, a atividade artística, que nos ensina sensibilidade, emoção, descortina-nos a ludicidade mais elaborada, vital para a espécie humana, e, como decorrência, faz-nos mais ternos, piedosos, desenvolve a nossa simpatia e a nossa empatia pela dor do outro. Obrigada, a todos os atuais e antigos integrantes do Teatro Serelepe, afinal, em uma época em que havia poucas diversões, nós tivemos o privilégio de “aprender a ser gente”, graças a arte que vocês disseminaram Rio Grande afora – e tomara que continuem disseminando por muitos anos, não havendo mais peças “de chorar”, mas fazendo rir, gargalhar e “vencer”, ainda que por algumas horas, a dura luta imposta pelas vicissitudes da vida. Vida longa ao Teatro Serelepe!

Professora Doutora Elaine dos Santos

Autora do livro “Entre lágrimas e risos: as representações do melodrama no teatro mambembe”, que traz, em um dos seus capítulos, a história do Teatro Serelepe.


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