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Previsão do Tempo


Um preço muito alto – Elaine dos Santos

30 de maio de 2019 | Arquivado em Opinião | 76 views

Haverá novos pedágios entre Porto Alegre e Santa Maria pela RSC 287. A rodovia, desde o governo passado, está sendo reformada com recursos assumidos pela administração pública e, posteriormente, pelo que se sabe, será entregue ao comando de uma empresa privada.

Já ocorreram audiências públicas, já foram definidas as praças de pedágio, as discussões sobre valores parecem bem adiantadas, mas há muitas indagações que ainda persistem.

No entanto, existe outro aspecto relativo à modernização da rodovia, à sua reforma, a uma suposta qualidade do novo asfalto: as vidas que estão sendo ceifadas. Nem ouso fazer um balanço numérico sobre carros avariados, semidestruídos, destruídos, totalmente destruídos.

Sim, você pode argumentar que há imperícia, imprudência por parte dos motoristas e eu concordo. Mas há longos trechos em que o asfalto foi retirado e, “de soco”, o carro mergulha neles, vários deles com buracos, sem qualquer sinalização que distinga a pista contrária ou o acostamento. Por outro lado, também existem trechos com asfalto novo, quase impecável, não fosse um detalhe: falta-lhes sinalização e, principalmente, ao cair da tarde e à noite, tudo se confunde, tudo é cinza, tudo é negro, com faróis altos pela frente e, muitas vezes, no retrovisor, o motorista não consegue saber em que parte da pista (ou do acostamento) está dirigindo.

Dias atrás, no meio da tarde, fui de Restinga Seca até Agudo, 30 km. Louvei que havia cones demarcando a linha divisória entre as duas pistas, pensei: “Puxa, que sacada legal, isso facilitará o trânsito à noite”. Quando regressei, por volta de 18h30min, os funcionários não estavam mais trabalhando e os cones haviam sido retirados. Os faróis dos carros na via contrária balizavam o rumo a seguir.

Desconheço todos os procedimentos técnicos que determinam a segurança durante os consertos/reformas de uma rodovia – confesso a minha ignorância no quesito engenharia e, em particular, engenharia de segurança/trânsito; mas, como moradora de uma cidade que está sendo afetada, semanalmente, pelos acidentes de trânsito na RSC 287, questiono-me sobre o alto preço que esse pedágio na rodovia tem nos custado. Se, agora, antes de sua instalação, famílias pranteiam a morte de jovens homens (28, 31, 26 anos), que custos ainda mais nos serão cobrados?

Conversando com amigos, extrapolamos o caso da reforma da rodovia para a nossa sociedade em geral: em que medida seres humanos – motorizados ou não, ricos ou pobres, pretos ou brancos – têm recebido valor, têm sido importantes e considerados em suas vidas (o bem mais precioso) quando são determinadas políticas públicas? Como professora – ainda que aposentada -, fui a primeira a responder: “Os professores, em particular os professores estaduais nada valem. Os seus salários, um direito que lhes é inerente, tornou-se esmola, sem reajuste, pago em ‘fatias’; na sala de aula, os professores, aqueles que estudaram, que vararam madrugadas dedicando-se ao conhecimento de teorias de aprendizagem, psicologia da educação, psicologia do desenvolvimento são confrontados por pais e mães que desconhecem os seus próprios filhos, mas ‘acham’ que o professor é o único responsável pelos males da sociedade e que ele, professor, com 40 alunos em sala de aula, deve dar atenção para o filho do papai e da mamãe, já que papai e mamãe não querem dar atenção para um filho dentro de casa.”

Perdemos o respeito por nós mesmos, como cidadãos, e deixamos que o Estado/governo nos desrespeitasse, não sei, mas desconfio que ainda vamos pagar muito caro por tudo isso. Impressiona-me, por outro lado, a passividade com que as pessoas enfrentam as vicissitudes do cotidiano, como se elas fossem presas do destino, meras marionetes. Tristes tempos.

Profª Drª Elaine dos Santos

Autora da tese “Entre lágrimas e risos: os Serelepes e a memória do teatro itinerante”


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