Enquete

Qual time gaúcho tem mais chances de ser campeão do Brasil?

Ver resultado

Loading ... Loading ...

Previsão do Tempo


Nojo e solidão – Elaine dos Santos

12 de março de 2020 | Arquivado em Opinião | 150 views

Elaine dos Santos – Professora

            Alguns anos atrás, um homem negro, homossexual, visivelmente com a sua roupa suja, entrou em desespero no funeral de uma amiga, usuário de drogas, brutalmente assassinada. Ele chorava, questionava o poder divino, chorava, revoltou-se e chorou copiosamente. Ofereci-lhe um abraço, era tudo que eu poderia fazer naquele momento e ele “desmanchou-se”, aliviado no meu abraço.

            Independentemente de ser negro, homossexual, estar com a roupa suja, havia um ser humano sofrendo diante de mim. E, como ser humano, que já enfrentou a dor, o sofrimento, a morte de pessoas amadas, eu só poderia oferecer-lhe um abraço, o mesmo abraço que eu recebi e espero receber quando eu estiver sofrendo (embora, em muitas ocasiões, um abraço que ampara tenha me sido negado).

            O que, como seres humanos, difere-nos? Nascemos de um relacionamento sexual em que, normalmente, houve prazer, houve gozo entre um homem e uma mulher (às vezes, é bem verdade, há apenas violência). Em geral, a nossa primeira experiência traz um esforço, o parto, abrir caminho para a vida (ainda que algumas mulheres prefiram uma cesárea ou sejam induzidas a tal). Os nossos primeiros passos são cambaleantes e assim seguimos vida afora.

            Há, em nosso corpo, uma série de fluidos que nos caracterizam como seres vivos. Um deles é a bile, o “fel”, produzida pelo fígado e armazenada pela vesícula biliar, ela serve para ajudar na digestão da gordura e na absorção de substâncias dos alimentos (dieta) que passam pelo intestino. A saliva também é um fluido, ela é produzida diretamente na cavidade bucal, serve para protegê-la, umedecendo os seus tecidos. Cabe lembrar que algumas doenças podem ser disseminadas pela saliva!

            Segundo eu sei, o sangue também é um fluido corporal. E se bem lembro, no final dos anos 80, início dos anos 90, a doação de sangue tornou-se um tabu, em virtude do surgimento da AIDS, até que exames permitissem a detecção do vírus transmissor. No mesmo espectro, estava o sêmen, que conduz o espermatozoide, que permite a fecundação da mulher – sabia-se, então, que uma relação sexual sem preservativo poderia transmitir AIDS.

            Por outro lado, até onde sei, H1N1, Covid-19 (o novo Coronavírus) são transmitidos pelas gotículas de saliva; o sarampo é transmitido por gotículas do nariz ou da boca (ainda que haja vacinas, pessoas morrem de sarampo no Brasil). Não conheço casos de pessoas que tenham morrido por causa de um abraço. Conheço, porém, pessoas que definham na solidão.

            Aristóteles, o filósofo grego, ensinou-nos, cerca de 2.500 anos atrás, que o homem é um ser social e a convivência em um ambiente social (a pólis, a cidade) é natural, de modo que a felicidade torna-se a própria finalidade da espécie humana. Se sentirmos nojo do outro, do outro que emite fluidos como nós, estamos condenados à miserabilidade da solidão, a solidão conduz ao medo, ao afastamento do que é racional, tornamo-nos brutais, perdemos aquilo que nos é mais próprio: a nossa humanidade.

Elaine dos Santos

Professora.


Mapa do Site

Fale Conosco

Fale conosco

Nome (obrigatório)

E-mail (obrigatório)

Mensagem