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Cientista sepeense residente em Londres fala dos impactos do Covid-19

18 de abril de 2020 | Arquivado em Geral, Pelo Mundo | 2.669 views

Larissa Garcia Pinto

Pesquisadores de todo o mundo seguem os estudos sobre o Covid-19.

É uma corrida desigual. Enquanto o vírus se multiplica rapidamente, os cientistas precisam de tempo para testar os remédios. Pesquisadores do mundo todo estão na briga contra o relógio.
Nossa reportagem conversou esta semana com a sepeense, Larissa Garcia Pinto, que reside em Londres-Reino Unido e trabalha como pesquisadora associada de pós-doutorado no King’s College London. Ela relata como o Reino Unido está enfrentando essa pandemia, medidas tomadas para governo e autoridades de saúde.

( Reportagem- Luís Garcia)


JG: Quando começaram a surgir os primeiros casos de Covd19 no Reino Unido?


Larissa: Desde o final de fevereiro e início de março os meios de comunicação começaram a noticiar os primeiros casos de coronavírus no Reino Unido. Lembro que no dia 6 de março existiam aproximadamente 100 casos, um número que era baixo ainda, e que apesar de existir o medo de que acontecesse como na China, as coisas ainda estavam funcionando normalmente.
No entanto, nas duas semanas seguintes as coisas começaram a mudar rapidamente e já era possível ver a agitada e sempre lotada Londres, com ruas bastante vazias, trens com um número bem menor de pessoas do que o habitual, muitas pessoas usando mascaras e luvas na rua.

JG: Como você encarou isso e qual o comportamento da população?


Larissa: No começo bem assuatada, pois começaram a falta alguns itens nos supermercados, tais como papel-higiênico, arroz e macarrão. Confesso que ao me deparar com tudo isso, por varias vezes senti um aperto no peito, uma sensação ruim das coisas estarem diferentes do que eu estava acostumada a ver e viver no meu dia a dia.


JG: Como foi a decisão das autoridades com o isolamento social?


Larissa:
Na semana do dia 16 de março muitas empresas já começaram a enviar seus funcionários para trabalharem de casa. Era possível ver nas estações de trem, várias pessoas com caixas de computadores nas mãos para poderem fazer “home-office”. Além disso, as universidades também já haviam liberado os alunos das aulas presenciais e começaram as atividades on-line.
Na universidade em que trabalho, já começava as primeiras medidas para que os laboratórios parassem suas atividades. Não era permitido começar nenhum experimento novo, podíamos somente terminar o que já havíamos começado. No nosso departamento as pesquisas são voltadas para a área de neurociências e principalmente fazemos pesquisa básica. Deste modo, grande parte dos equipamentos, reagentes e materiais que poderiam ser uteis para a pesquisa do coronavírus foram disponibilizados para os laboratórios que estão trabalhando na pesquisa da COVID-19.


Quando o governo começou a tomar medidas mais drásticas?


Larissa:
No dia 23 de março foi decretado pelo governo britânico o confinamento completo (“lockdown” como chamam em inglês), ou seja, devemos ficar dentro de casa. Fica proibido encontrar amigos e até mesmo familiares, só podemos ter contato com as pessoas que moram na mesma casa.
Somente podemos sair para comprar comida ou medicamentos, mas o mínimo possível, sendo recomendado que as pessoas façam isso uma vez na semana, e sempre que possível comprar online. No entanto, apesar de ser muito comum os supermercados terem seus próprios sites onde pode-se fazer compras online (usamos este serviço várias vezes desde que moramos aqui), com o aumento da demanda tem se tornado quase impossível conseguir receber as compras em casa ou mesmo fazer a coleta das compras.

Nos supermercados foram colocadas marcações no chão, para que as pessoas mantenham a distância. Além disso, sempre existem filas (também com marcações) na parte externa dos supermercados, uma vez que tem um limite de pessoas que podem estar dentro dos estabelecimentos ao mesmo tempo. Produtos para limpeza dos carrinhos ficam disponíveis aos clientes e proteções de vidro foram colocadas nos caixas.

Também está sendo recomendado o pagamento com cartões, evitando o uso de dinheiro em espécie, pois é um meio que pode também levar a propagação do vírus. Ainda, muitos destes estabelecimentos tem reservado períodos específicos para que as pessoas que estão trabalhando na linha de frente de combate ao coronavírus, tenham acesso primeiro as lojas ou tenham prioridade nas compras online.

JG: E qual o comportamento da população com essas restrições do governo?


Larissa:
A grande maioria leva a sério. Atividades físicas como corrida e caminhada, ou até mesmo sair com seu animal de estimação, podem ser feitas uma vez ao dia ao ar-livre, mas sempre respeitando o distanciamento obrigatório de 2 metros.

No geral as pessoas respeitam as regras, mas acredito que como na maior parte do mundo, aqui também existem as que não levam assim tão a sério o que estamos vivendo. De fato, algumas semanas atrás alguns bairros aqui em Londres tiveram que fechar a entrada dos parques (Londres tem parques espalhados por toda a cidade, com áreas verdes extensas), pois tinham pessoas aglomeradas e que estavam até mesmo tomando banho de sol.

É importante ressaltar, que acabamos de sair do inverno, um período de poucas horas de luz solar e ainda bastante chuvoso por aqui, sem falar nas baixas temperaturas. Assim, nesta época do ano com a chegada da primavera, naturalmente aumenta o número de pessoas ao ar livre para aproveitar os dias mais quentes e longos, o que se torna mais um fator preocupante para que as pessoas respeitem o confinamento.

JG: Quias serviços estão disponiveis para a população?


Larissa:
Somente os serviços essenciais estão funcionando e mesmo assim em horários reduzidos. Por exemplo, no meu bairro a coleta do lixo que era semanal passou a ser a cada 15 dias, para evitar a exposição dos lixeiros. Restaurantes estão funcionando somente com a opção de delivery.

Os tradicionais bares ingleses, os “pubs” estão todos fechados, bem como o comercio no geral. O setor de construção civil também está praticamente parado. Bancos estão funcionando restritamente e escolas estão fechados. O ano letivo aqui termina na metade do ano, quando começa o verão. Nesta época acontecem os exames (equivalente ao vestibular e o Enem no Brasil) que classificam os estudantes para o ingresso no ensino superior. No entanto, estes serão cancelados este ano.

JG: E os impactos dessa pandemia para os londrinos?


Larissa:
É evidente que essa pandemia está afetando a vida de todos de diferentes maneiras e intensidades. Nossa vida não é como era alguns meses atrás, precisamos nos adaptar. A economia do país está em queda, como em todo o mundo, e o governo tem tomado medidas para ajudar a população e as empresas no geral. Ainda em março foi aprovado que o governo vai pagar 80% dos salários dos funcionários (de até no máximo o valor de 2.500 libras) das empresas que pedirem auxílio, uma vez que muitas delas estão fechadas e com isso não tem renda suficiente para pagar a folha salarial.

JG: Quanto ao transporte público?


Larissa:
Em relação ao transporte público, várias estações de metrô (40 no total) foram fechadas e somente as que operam mais de uma linha estão funcionando. As linhas de ônibus e de trem também estão operando em frequência reduzida. Quem já visitou Londres, ou até mesmo pela televisão, já observou que o fluxo de aeronaves no céu é intenso, algo que está sendo raro atualmente.

JG: Sobre os números de infectados no Reino Unido? E até quando vai o isolamento social?


Larissa:
Nesta semana, o governo estendeu pelo menos até metade de maio o confinamento. No dia de hoje, 18 de abril, Londres contabiliza 20.215 casos confirmados de coronavírus. No Reino Unido são um total de mais de 114 mil casos confirmados e 15.464 mortos.

Todos os dias esses novos números são atualizados e assustam. O NHS, serviço de saúde publica do Reino Unido, do qual serviu de inspiração para o SUS no Brasil, está funcionando praticamente no seu limite de capacidade. Vários hospitais estão se dedicando somente a pacientes com COVID-19, outros com alas inteiras reservadas somente para estes pacientes.

Infelizmente muitos médicos já precisam escolher quem recebe suporte intensivo, uma vez que não existem leitos para todos aqueles que precisam. Um grande centro de eventos foi transformado em hospital para receber pacientes. O governo pediu a todos aqueles profissionais da saúde (principalmente médicos e enfermeiros) que pudessem voltar a trabalhar que se candidatassem. O número de profissionais foi muito maior do que o esperado.


JG: A população tem apoiado as decisões do governo e comunidade cientifica?


Larissa:
No geral os britânicos estão seguindo as recomendações impostas pelo governo. Um fator importante que aqui no Reino Unido é levado muito a sério pela população no geral, é a importância da ciência. A população acredita e apoia a ciência!
Como cientista sempre me surpreendi com o engajamento da população britânica com a ciência e desde o começo da pandemia vários projetos e financiamentos estão sendo aprovados para a pesquisa do coronavírus aqui no Reino Unido.
Cientistas do mundo todo estão se dedicando a entender melhor como o vírus age, porque mais homens do que mulheres são acometidos, fatores de risco para uma maior mortalidade, porque alguns pacientes são assintomáticos, outros desenvolvem a doença de forma mais amena e outros mais grave, diferentes testes para detecção do vírus, quais medicamentos já aprovados são eficazes para tratar pacientes hospitalizados, entre tantas outras perguntas a serem respondidas, mas acredito que um dos principais objetivos seja a busca por uma vacina eficaz contra o coronavírus.


JG: Agradecemos o seu relato, torcendo que a comunidade cientifica possa avançar nas pesquisas do Covid-19.


Larissa:
Fico feliz por você ter oportunizado contar a minha experiência aqui no Reino Unido e tudo que estamos passando com essa pandemia.

As pesquisas não param e a todo momento novos estudos estão sendo publicados. Para voltarmos a circular novamente como há alguns meses, acredito que somente quando a maior parte da população estiver vacinada, pois somente assim estaremos seguros e imunes ao coronavírus.

QUEM É LARISSA GARCIA PINTO?

  • Larissa Garcia Pinto, natural de São Sepe-RS
  • Trabalha como Pesquisadora Associada de pós-doutorado no King’s College London
  • Mora em Londres-Reino Unido desde abril de 2015.
  • Formada em Farmácia, pela UFSM (2008). Fez mestrado (2010) e doutorado (2014) em Farmacologia pela FMRP-USP (Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto- Universidade de São Paulo).

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